Infecções urinárias afetam maioria das mulheres e exigem atenção médica

Criciúma (SC)

Cerca de 60% das mulheres terão ao menos um episódio de infecção do trato urinário (ITU) ao longo da vida, enquanto entre 30% e 40% enfrentarão quadros recorrentes, conforme informações da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Dados do Ministério da Saúde indicam que metade da população feminina ainda não foi afetada, ao menos até o momento, o que reforça a dimensão do problema como um fenômeno amplo, progressivo e com impacto direto na qualidade de vida.

No Brasil, essa condição aparece entre as principais causas da busca por atendimento médico e prescrição de antibióticos, com crescimento das hospitalizações impulsionado, sobretudo, pela resistência antimicrobiana.

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As infecções urinárias integram um conjunto de infecções geniturinárias que também abrange quadros vaginais. “São extremamente prevalentes entre as mulheres. Mais de 50% terão ao menos um episódio ao longo da vida e cerca de 30% apresentarão infecções vaginais em algum momento”, afirma a uroginecologista Nadhine Ronsoni.

Embora não haja consenso sobre um aumento expressivo da incidência global, a percepção clínica aponta maior frequência dos casos, especialmente os recorrentes. Esse cenário está ligado às  transformações comportamentais e fatores biológicos que reconfiguram o risco ao longo da vida.

Fatores como início mais precoce da vida sexual, maior número de parceiros, uso frequente de antibióticos e práticas de higiene inadequadas aparecem como vetores relevantes. “Esses elementos alteram o microbioma vaginal e contribuem para a disbiose, o que favorece infecções recorrentes. A resistência bacteriana, nesse contexto, emerge como componente crítico, ao tornar os quadros mais persistentes e de difícil tratamento”, cita Nadhine.

Gravidez amplia riscos e exige rastreamento

Durante a gestação, o organismo feminino passa por alterações hormonais e anatômicas que elevam a suscetibilidade às infecções. A prevalência de infecção do trato urinário (ITU) aumenta nesse período e, quando não tratada, entre 20% e 40% dos casos podem evoluir para pielonefrite aguda, uma infecção renal potencialmente grave.

Os impactos ultrapassam a saúde materna e alcançam o desenvolvimento fetal. A presença de infecção urinária, especialmente em estágio avançado, está associada ao aumento de 20% no risco de parto prematuro, além de maior incidência de baixo peso ao nascer. Em situações mais severas, há ainda a possibilidade sofrimento fetal, sepse neonatal e elevação da morbidade perinatal.

“Diante desse cenário, os protocolos de pré-natal sustentam a realização de exames de urina de rotina, mesmo na ausência de sintomas. Já para infecções vaginais, o rastreamento não é universal, mas pode ser indicado em grupos de maior risco, como gestantes com histórico de parto prematuro”, ressalta.

Sintomas, complicações e sinais de alerta

Os sintomas variam conforme o tipo e a gravidade da infecção. No caso das ITUs mais simples, como a cistite, predominam dor ao urinar e aumento da frequência miccional, presentes em cerca de 80% dos casos. Quando há progressão para quadros mais graves, como a pielonefrite, surgem sinais sistêmicos como febre acima de 38°C, dor lombar, náuseas e vômitos.

“Nas infecções vaginais, o quadro mais recorrente inclui corrimento anormal, observado em até 70% das pacientes, prurido, odor fétido, ardor local e, em alguns casos, dor durante a relação sexual”, salienta a especialista.

A ausência de tratamento adequado pode conduzir a complicações relevantes. Cerca de 40% das infecções urinárias não tratadas podem evoluir para comprometimento renal. Já a vaginose bacteriana está associada a um aumento de quatro vezes no risco de doença inflamatória pélvica, condição que pode levar à infertilidade em até 20% dos casos. “Também há aumento da suscetibilidade a infecções sexualmente transmissíveis, como HIV e HPV, devido às alterações da mucosa vaginal”, destaca.

A procura por atendimento médico deve ocorrer diante de sintomas persistentes por mais de 48 a 72 horas, recorrência frequente ou sinais de gravidade. Em gestantes, o acompanhamento precisa ser ainda mais rigoroso.

Idade, comportamento e doenças associadas

A incidência das infecções geniturinárias acompanha o ciclo de vida feminino. Em mulheres jovens, o início da atividade sexual é um dos principais fatores de risco, elevando em até 40 vezes a probabilidade de infecção em comparação às mulheres não ativas sexualmente.

Na pós-menopausa, o cenário se reconfigura. A queda dos níveis de estrogênio conduz à atrofia urogenital, redução de lactobacilos protetores e aumento do pH vaginal, favorecendo a colonização por microrganismos. Conforme dados da Fiocruz, a prevalência de ITU recorrente cresce com a idade, atingindo até 50% em mulheres com mais de 80 anos.

“Doenças crônicas, como diabetes e obesidade, também ampliam o risco, com probabilidade de infecções entre duas e quatro vezes maior, além de maior incidência de quadros complicados”, cita Nadhine.

Cuidados e prevenção

A prevenção das infecções geniturinárias passa por um conjunto de práticas cotidianas como higiene adequada, hábitos comportamentais e atenção ao próprio corpo.

A ingestão de água ocupa papel central. O aumento do consumo hídrico pode reduzir em até 50% a recorrência de infecções urinárias, ao estimular o fluxo urinário e diminuir a concentração bacteriana na bexiga. Evitar segurar a urina e urinar após a relação sexual também contribuem para a mitigação do risco.

No caso das infecções vaginais, o equilíbrio do microbioma aparece como eixo estruturante. Evitar duchas vaginais, produtos agressivos e antissépticos, além de priorizar roupas íntimas de algodão, ajuda a manter o ambiente local mais estável.

“A higiene íntima deve se restringir à região externa, com produtos suaves e pH adequado. A limpeza interna da vagina não é recomendada, pois compromete a flora protetora. Outro cuidado importante envolve a direção da higiene após evacuação, sempre no sentido ântero-posterior. Em mulheres na pós-menopausa, o uso de cremes vaginais específicos pode reduzir a recorrência de infecções em cerca de 30%, reforçando a importância de acompanhamento médico individualizado”, explica a uroginecologista.

 


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